A Pergunta
"Ontem tudo se passou como normal. Pergunto-me se terei mudado durante a noite? Deixa-me pensar: era a mesma quando me levantei hoje de manha? Quase que penso que me lembro de me sentir um pouco diferente. Mas se não sou a mesma, a próxima pergunta é, quem sou eu? Ah, esse é o grande puzzle! ", Alice, Alice no pais das maravilhas
Esse é mesmo o grande puzzle! Quem sou eu? O que sou ? Se não se olha com atenção, é fácil assumir que se sabe quem é. Quem és? Eu sou o João, sou agricultor. Serás mesmo?
João, agricultor, pai, mãe, irmão, filho - Isto são tudo 'coisas' sobre ti, não são 'tu'. Todas as noções acerca do 'eu' vêm sempre depois do 'eu'.. 'eu sou ... - então o que é este 'eu' que se chama a si mesmo de João? Esse é o grande puzzle!
Não é só o grande puzzle, mas é a questão e a descoberta mais importante e mais nobre. Não há nada mais importante neste vida do que a descoberta da resposta para esta pergunta. Como é dito na tradição Sufi: "Aquele se descobre a si próprio, descobre Deus".
O Mestre Padmasambhava disse:
"Não investigues a raiz dos fenómenos,
Investiga a raiz da mente!
Quando a raiz da mente é descoberta
saberás uma coisa, e nessa uma descoberta, tudo se descobre.
Mas se não descobres a raiz da mente,
podes saber muitas coisas,
mas não compreenderás nada"
A pessoas pensam que são uma ideia. Dizer, eu sou engenheiro, não tem sentido algum. 'Engenheiro' é uma ideia, um conceito, que nem sequer aponta para nada de concreto e permanente. A própria ideia em si muda com o espaço e tempo, de época para época e de local para local. É apenas uma ideia, subjectiva e sem substancia alguma. O que tu verdadeiramente és, não é, não pode ser, uma ideia. Quando a pessoa se identifica com uma ideia, estão a convidar imensos problemas, tantas tensões e confusões. Estão a tentar ser, sentir, agir e mostrar ao mundo que são essa ideia.
Não importa qual é a ideia, a etiqueta e conceito podem mudar, não importa.
Até mesmo as ideias de ser um 'ser humano', uma 'pessoa' , um 'corpo', isto tudo são conceitos relativos e temporários sobre 'eu', 'eu' não é nada dessas coisas. No caminho espiritual por vezes, as pessoas criam uma nova identidade, e passar a ter a ideia que são qualquer outra coisa mais bela e elevada: eu sou divino, eu sou um ser de luz, eu sou um Buddha, eu sou uma alma etc etc.. o problema é o mesmo, essas coisas são só mais ideias sobre o 'Eu'.
Sempre que a pessoa se identifica a si própria, seja a ideia de ser agricultor, professor, estudante, pai, mãe, marido, mulher, rico, pobre; identificação com qualquer ideia, vem inseparável de tantos julgamentos e conceitos sobre o que significa ser isso.
Como se deve ser e sentir, como tudo deve ser para si, sendo essa 'coisa'. O sentido de 'ser', fica mais e mais dividido, separado da forma como as coisas são na frescura e actualidade do momento. Fica-se desconectado do 'Ser' mais profundo tentando viver uma vida de tantas personalidades diferentes. Esta tensão e desconexão, é a base de todo o descontentamento e ansiedade.
Tentando viver a vida baseado numa idea sobre quem és, não podes ver o que está aqui, agora, neste momento. Porque estás a ver-te a ti e ao mundo através das lentes de tantas ideias, e não a olhar de uma forma genuína e integrada com o que está aqui e agora. Toda a gente tenta dizer-te como deves ser, como deves ser como pai, mãe, marido, esposa, profissional, até como um ser humano. A sociedade tenta dizer-te, psicólogos tentam dizer-te como deves pensar e sentir para seres feliz, toda a gente está a tentar dizer como ser e pensar. Tu também, sobretudo, dizes a ti mesmo o tempo todo como te deves sentir ou ser, baseado numa acumulação de ideias adquiridas ao longo da vida.
Ideias nunca te poderão trazer felicidade, não verdadeiramente ou de forma autentica e profunda. Quem tu és não é uma ideia. Quem tu és não é um pensamento, e não pode ser alterado ou derivado de pensamentos. Não existe verdade ultima que possa ser encontrada através de ideias e pensamentos, somente verdades relativas e temporárias. Verdade é como as coisas são, em cada momento, e nem sequer depende de momentos pois está para alem do tempo. Nenhum pensamento lhe pode tocar ou saber. Somente o teu Ser mais profundo e ultimo pode saber, verdadeiramente saber como as coisas são.
Da mesma forma, somente o teu Ser mais profundo, a consciência primordial, pode saber quem és, o que és, a tua natureza. Somente essa consciência primordial se pode conhecer a si mesma e isso é felicidade, isso é sabedoria.
O mundo não é aquilo que aparenta ser. Tu não és aquilo que te pensas ser.
Isto só pode ser descoberto pela inspiração do teu próprio Ser ultimo , da consciência primordial, e com a orientação de um guia. Não pode ser visto através de palavras e ideias. Porque palavras e ideias não conseguem ir mais alem de si mesmas - e o que tu és , está para alem da mente!
