O Voo do Abutre não Deixa Rasto
O Voo do Abutre não Deixa Rasto
por Aja Das
Um Manual de Pratica e Comentário sobre o texto de Bodhidharma “As Duas Entradas - O Delinear da Pratica"
Este comentário é do ponto de vista de Atiyoga.
Todos os seres são por natureza a perfeição total, alegria, amor e sabedoria. Embora possa parecer que existem tantos problemas, perturbação emocional, dificuldades interiores e exteriores, na realidade essencialmente não existe sequer o menor rasto de sofrimento ou ignorância no Ser. Mas devido ao facto que essa natureza límpida e perfeita não é visível, estando obscurecida por um véu de inconsciência (não-saber), as pessoas sentem um profundo descontentamento e inquietude. Este descontentamento aparece porque se sente constantemente que falta alguma coisa. Na realidade a condição autentica do Ser é um espaço fundamental e luminoso. Podemos olhar directamente para dentro de nós e observar: A pessoa que pensas ser, o que é? Onde está? De que é feita? É possível agarrar e identificar essa pessoa algures no interior do ser? Esse olhar interior e directo aponta para algo muito importante, e ao mesmo tempo enquadra a verdadeira base da nossa natureza espiritual.
Como resultado de não reconhecer esta condição absoluta do Ser, os seres vivos estão constantemente em busca, sentindo que falta alguma coisa. Estão sempre com falta de algo, de obter alguma coisa ou atingir algum objectivo, de sentir isto ou aquilo etc. Por outro lado tudo o que não se encaixa nas ideias que têm sobre o que se quer é temido e rejeitado.
Desta forma existe uma busca constante por paz, felicidade e satisfação, sempre focada em obter alguma coisa diferente do que está presente aqui e agora, e geralmente focado em experiências transitórias ou objectos. Vivendo desta forma somos abalados constantemente por emoções perturbadoras como raiva, medo, inveja, esperança etc, como um pequeno barco numa tempestade. Isto leva a todo o tipo de acções sem sentido, e até a destruição uns dos outros e do mundo.
Qual é então a base desta inquietude e busca, e de todas a perturbações e problemas que dai vêem? A base é o 'Eu'. Na condição real e fundamental não existe 'Eu'. O 'eu' aparente é uma miragem que aparece devido a não se reconhecer o espaço da totalidade. Desse 'eu' manifesta-se muito rápido: Eu quero, Eu preciso, Eu não quero, Eu gosto, Eu não gosto. No momento que este 'Eu' toma forma, de imediato vamos em busca, correndo de um lado para o outro, querendo, gostando e temendo, evitando e odiando. Sempre focados na multitude de experiências em que o 'eu' se envolve como se fossem coisas reais e fixas.
Não sabemos verdadeiramente que as vidas que vivemos, as coisas que construímos e acumulamos, são como castelos de areia construídos na praia durante a maré baixa. E cada vez que a maré sobe e limpa a praia ficamos muito surpreendidos, tristes, deprimidos e zangados; ficamos acordados durante a noite a pensar sobre os castelos que a maré levou.
Em geral as pessoas estão constantemente sob a influencia de medo, o medo que a maré leve tudo o que se construiu - o que inevitavelmente acontece. A partir deste 'eu' também se desenvolve todo o tipo de fantasias, projecções mentais e inúmeros julgamentos sobre o mundo e nos próprios. Desta forma o mundo é visto baseado nesses julgamentos, preconceitos e não baseado no que de facto se encontra ali a cada momento, criando ainda mais tensões e problemas, e uma serie de conflitos - conflitos interiores e exteriores
A felicidade, paz e união que toda a gente busca por todo o lado e em todo o tipo de coisas, é na realidade a união com a sua condição verdadeira, a totalidade da condição absoluta. Na realidade o modo como os seres vivem, a sua percepção da realidade, é comparável a um sonho febril. Desta forma podemos dizer que retornar á condição real é como despertar - um despertar da ilusão de ser uma 'pessoa real', um 'Eu-pessoa-corpo' real vivendo num mundo exterior real e independente. Como diz num sutra: "a mente desperta não realizável pelo corpo ou mente conceptual, é livre de todas as ideias e objectos. A mente desperta é a eliminação de todas as opiniões e visões parciais. É livre de toda a discriminação. Despertar é chegar á liberdade de todas as tendências habituais. É sem dualidade para além de uma mente e objectos. A mente desperta é não-criada porque não nasceu nem é destruída. É a condição ultima e a realização da realidade". E como Saraha escreveu:
Assim como muitos rios são um no oceano
Todas as meias verdades são engolidas pela única verdade
O brilho do sol ilumina todos os cantos escuros
Atingindo directamente a essência
O método para aplicar a meditação consiste de três aspectos: Colocar o corpo, colocar a mente e abandonar a mente.
Em relação ao corpo devemos aprender as formas correctas de sentar de forma a não bloquear a clareza da mente.
Não lembrar o passado
Não imaginar o futuro
Não pensar agora
Não examinar o que está a acontecer
Não controlar o que está a acontecer
Repousar - Agora relaxar e repousar a mente
Dissolvendo a Ilusão
O caminho que dissolve a ilusão é a forma de aplicar o caminho para a liberdade na vida diária. A forma de entender esta abordagem é através de dois princípios: A Entrega e agir de acordo com a verdadeira natureza.
A Entrega
Contentamento
Abandonar expectativas acerca de resultados
Este tipo de entendimento da situação traz uma grande paz e clareza mental. Desta forma podemos agir no mundo de acordo com as nossas necessidades e com a situação actual, o melhor possível, sem ficar envolvido com expectativas acerca do resultado.
Agir em presença de acordo com as condições
Se entendemos isto, então com uma mente firme e presente no momento, fazemos o nosso melhor em cada situação e contexto, sempre com atenção á nossa motivação.
Resumindo de forma mais breve e sucinta como aplicar o principio de Entrega:
A visão de algo como sendo impuro, bom ou mau, é apenas conceptual e não tem base em nada de concreto fora da mente. Como exemplo, um espelho nunca é puro ou impuro. Podemos cobrir o espelho com pó e lama, mas por baixo da sujidade aparente, o espelho continua límpido e a reflectir. Se o espelho fosse sujo, nunca poderia ser limpo. No entanto se o limpamos, dizemos que agora está limpo. Igualmente, se o espelho fosse verdadeiramente limpo, nunca o poderíamos cobrir com sujidade e dizer que está sujo. O estado verdadeiro do espelho é para alem de limpo ou sujo. Olhando de uma outra forma podemos observar que é possível colocar seja o que for em frente ao espelho, podemos colocar uma coisa bonita, ou podemos colocar algo horrível - o espelho reflecte tudo, mas o espelho em si nunca fica bonito nem horrível. Isto é semelhante á mente e as suas experiências. A mente pode ter pensamentos positivos e negativos. Isto acontece exactamente porque a mente em si é para alem de positivo e negativo, de puro ou impuro, de pecado ou virtude. A mente, na sua essência, é imaculada e imaculavel como o espelho. Pode experienciar coisas e pensamentos positivos ou negativos sem nunca ficar presa como sendo positiva ou negativa. A mente é primordialmente para além de ideias de puro ou impuro. Esta é a condição da mente e de todos os fenómenos. Como diz no Lankavatara: "Todas as coisas são ilusórias, não existe impuro nem puro; as coisas não são o que parecem ser, mas também não são algo diferente".
O significado total deste texto pode ser posto numa só frase: Quem pensas ser não é um 'Quem' de todo. Faz dessa descoberta a missão da tua vida e não poderás falhar. Durante a vida, no movimento pelo mundo, lembra-te: Age com gentileza, bondade. Sê forte e corajoso. Vive como um grande abutre a planar no espaço.
Copyright 2019, Aja Das.
Este texto, em parte ou totalidade, não pode ser reutilizado, copiado, ou publicado sem autorização por escrito do autor.
por Aja Das
Um Manual de Pratica e Comentário sobre o texto de Bodhidharma “As Duas Entradas - O Delinear da Pratica"
Este comentário é do ponto de vista de Atiyoga.
Aviso á navegação: Este texto serve como manual pratico para apoiar aquele que caminha para a descoberta da sua verdadeira condição e da totalidade da realidade - No entanto, não substitui a necessidade e importância de instrução, transmissão, clarificação e apoio de um amigo espiritual qualificado e experiente.
Todos os seres são por natureza a perfeição total, alegria, amor e sabedoria. Embora possa parecer que existem tantos problemas, perturbação emocional, dificuldades interiores e exteriores, na realidade essencialmente não existe sequer o menor rasto de sofrimento ou ignorância no Ser. Mas devido ao facto que essa natureza límpida e perfeita não é visível, estando obscurecida por um véu de inconsciência (não-saber), as pessoas sentem um profundo descontentamento e inquietude. Este descontentamento aparece porque se sente constantemente que falta alguma coisa. Na realidade a condição autentica do Ser é um espaço fundamental e luminoso. Podemos olhar directamente para dentro de nós e observar: A pessoa que pensas ser, o que é? Onde está? De que é feita? É possível agarrar e identificar essa pessoa algures no interior do ser? Esse olhar interior e directo aponta para algo muito importante, e ao mesmo tempo enquadra a verdadeira base da nossa natureza espiritual.
Quando directamente descoberto vê-se que no espaço da condição fundamental do Ser não existe 'eu' ou 'outro', mas simplesmente a inseparabilidade indescritível da totalidade completa, que é em si, sabedoria profunda. Esta sabedoria não é um saber de algo como um objecto de conhecimento, como se sabe alguma informação ou facto, ou o nome de algo; é na realidade uma sabedoria porque existe inseparabilidade, e esta inseparabilidade é por si sabedoria que se sabe a si própria como sendo a totalidade e toda a diversidade que aparece em si. É sabedoria porque é saber puro que não tem objecto de conhecimento, mas no entanto tudo é sabido directamente. Esta condição real do Ser é também grande amor. Não é o sentimento de amor que se sente por algo ou alguém. Grande Amor é a natureza luminosa da condição ultima do Ser - porque esta condição ultima é uma grande não-dualidade onde não existe 'eu' e 'outro'. Esta ausência de 'eu' e 'outro' é Grande Amor.
É também grande alegria porque não existe a falta de nada, e nada para procurar ou alcançar. Quando não se sente a falta de nada, não existe nada para buscar ou atingir, e isto é Grande Alegria. É também Paz Total porque não há fixação a nenhum pensamento, ideias ou emoções perturbadoras; pensamentos ou emoção perturbadoras não são objectos a serem experienciados por um sujeito. Quando não existe fixação a nenhum estado emocional como sendo algo real, e nada para construir na mente conceptual, então estamos em paz. A condição ultima do Ser é intemporal e não-criada. Porque não é uma entidade ou uma 'coisa', nunca foi construída ou criada. Sendo intemporal encontra-se eternamente no Agora Eterno. É indestrutível e imaculável por nada porque não é um objecto, assim como o espaço não pode ser destruído ou poluído.
A condição ultima e real to Ser é união pura - a união consigo mesma em si mesma, de si mesma em toda a diversidade que se manifesta do seu espaço inconcebível. Não há nada que esteja em falta, porque é a totalidade. Assim como o oceano e as ondas: Muitas ondas aparecem na superfície do oceano, mas estas ondas nunca estão separadas do oceano, nem são nada de separado ou diferente do oceano. Da mesma forma os seres vivos são manifestações como indivíduos, e sendo inconscientes da sua condição, perdem-se nas muitas ondas que aparecem, não percebendo que eles próprios são também uma das ondas, e como tal, são o próprio oceano. Como diz num sutra: "A condição ultima e fundamental é paz e pacificação porque é livre de desejo. Não é um objecto porque é para alem de ideias. É inexpressível e transcende todos os movimentos da mente. É omnipresente porque é infinito como espaço, e é sem cor ou forma. Permeia igualmente todas as coisas. Não é estabelecido e é sem nascimento ou destruição."
É também grande alegria porque não existe a falta de nada, e nada para procurar ou alcançar. Quando não se sente a falta de nada, não existe nada para buscar ou atingir, e isto é Grande Alegria. É também Paz Total porque não há fixação a nenhum pensamento, ideias ou emoções perturbadoras; pensamentos ou emoção perturbadoras não são objectos a serem experienciados por um sujeito. Quando não existe fixação a nenhum estado emocional como sendo algo real, e nada para construir na mente conceptual, então estamos em paz. A condição ultima do Ser é intemporal e não-criada. Porque não é uma entidade ou uma 'coisa', nunca foi construída ou criada. Sendo intemporal encontra-se eternamente no Agora Eterno. É indestrutível e imaculável por nada porque não é um objecto, assim como o espaço não pode ser destruído ou poluído.
A condição ultima e real to Ser é união pura - a união consigo mesma em si mesma, de si mesma em toda a diversidade que se manifesta do seu espaço inconcebível. Não há nada que esteja em falta, porque é a totalidade. Assim como o oceano e as ondas: Muitas ondas aparecem na superfície do oceano, mas estas ondas nunca estão separadas do oceano, nem são nada de separado ou diferente do oceano. Da mesma forma os seres vivos são manifestações como indivíduos, e sendo inconscientes da sua condição, perdem-se nas muitas ondas que aparecem, não percebendo que eles próprios são também uma das ondas, e como tal, são o próprio oceano. Como diz num sutra: "A condição ultima e fundamental é paz e pacificação porque é livre de desejo. Não é um objecto porque é para alem de ideias. É inexpressível e transcende todos os movimentos da mente. É omnipresente porque é infinito como espaço, e é sem cor ou forma. Permeia igualmente todas as coisas. Não é estabelecido e é sem nascimento ou destruição."
Como resultado de não reconhecer esta condição absoluta do Ser, os seres vivos estão constantemente em busca, sentindo que falta alguma coisa. Estão sempre com falta de algo, de obter alguma coisa ou atingir algum objectivo, de sentir isto ou aquilo etc. Por outro lado tudo o que não se encaixa nas ideias que têm sobre o que se quer é temido e rejeitado.
Desta forma existe uma busca constante por paz, felicidade e satisfação, sempre focada em obter alguma coisa diferente do que está presente aqui e agora, e geralmente focado em experiências transitórias ou objectos. Vivendo desta forma somos abalados constantemente por emoções perturbadoras como raiva, medo, inveja, esperança etc, como um pequeno barco numa tempestade. Isto leva a todo o tipo de acções sem sentido, e até a destruição uns dos outros e do mundo.
Qual é então a base desta inquietude e busca, e de todas a perturbações e problemas que dai vêem? A base é o 'Eu'. Na condição real e fundamental não existe 'Eu'. O 'eu' aparente é uma miragem que aparece devido a não se reconhecer o espaço da totalidade. Desse 'eu' manifesta-se muito rápido: Eu quero, Eu preciso, Eu não quero, Eu gosto, Eu não gosto. No momento que este 'Eu' toma forma, de imediato vamos em busca, correndo de um lado para o outro, querendo, gostando e temendo, evitando e odiando. Sempre focados na multitude de experiências em que o 'eu' se envolve como se fossem coisas reais e fixas.
Não sabemos verdadeiramente que as vidas que vivemos, as coisas que construímos e acumulamos, são como castelos de areia construídos na praia durante a maré baixa. E cada vez que a maré sobe e limpa a praia ficamos muito surpreendidos, tristes, deprimidos e zangados; ficamos acordados durante a noite a pensar sobre os castelos que a maré levou.
Em geral as pessoas estão constantemente sob a influencia de medo, o medo que a maré leve tudo o que se construiu - o que inevitavelmente acontece. A partir deste 'eu' também se desenvolve todo o tipo de fantasias, projecções mentais e inúmeros julgamentos sobre o mundo e nos próprios. Desta forma o mundo é visto baseado nesses julgamentos, preconceitos e não baseado no que de facto se encontra ali a cada momento, criando ainda mais tensões e problemas, e uma serie de conflitos - conflitos interiores e exteriores
A felicidade, paz e união que toda a gente busca por todo o lado e em todo o tipo de coisas, é na realidade a união com a sua condição verdadeira, a totalidade da condição absoluta. Na realidade o modo como os seres vivem, a sua percepção da realidade, é comparável a um sonho febril. Desta forma podemos dizer que retornar á condição real é como despertar - um despertar da ilusão de ser uma 'pessoa real', um 'Eu-pessoa-corpo' real vivendo num mundo exterior real e independente. Como diz num sutra: "a mente desperta não realizável pelo corpo ou mente conceptual, é livre de todas as ideias e objectos. A mente desperta é a eliminação de todas as opiniões e visões parciais. É livre de toda a discriminação. Despertar é chegar á liberdade de todas as tendências habituais. É sem dualidade para além de uma mente e objectos. A mente desperta é não-criada porque não nasceu nem é destruída. É a condição ultima e a realização da realidade". E como Saraha escreveu:
Assim como muitos rios são um no oceano
Todas as meias verdades são engolidas pela única verdade
O brilho do sol ilumina todos os cantos escuros
Como podemos então descobrir esta condição real do Ser? Para tal primeiro é necessário ter uma motivação genuína e intensa para atingir esta liberdade e descoberta, para despertar. É necessário também abertura e coragem para questionar e examinar tudo para descobrir a diferença entre o que é falso e o que é verdadeiro, reconhecendo que todas as ideias e conceitos são reflexões pálidas e limitadas da realidade. Se queremos entrar nesta viagem de descoberta devemos compreender que tudo no mundo relativo é temporário, e desta forma pacificar e suavizar o nosso apego as coisas e ao mundo.
Em relação á forma, ao caminho, para descobrir a nossa condição real, existem muitas abordagens possíveis, no entanto todos os caminhos que levam a esse despertar são de dois tipos: Um caminho que atinge directamente a essência, ou um caminho que dissolve ilusão.
Embora cada abordagem possa ser seguida por si própria, e independente da outra, esta abordagem que explico combina as duas. Esta abordagem consiste num aspecto de meditação contemplativa e um aspecto de como aplicar o caminho durante a vida quotidiana. O aspecto de meditação contemplativa corresponde ao caminho que atinge directamente a essência, e o aspecto de aplicar o caminho na vida diária corresponde ao caminho que dissolve ilusão.
Embora cada abordagem possa ser seguida por si própria, e independente da outra, esta abordagem que explico combina as duas. Esta abordagem consiste num aspecto de meditação contemplativa e um aspecto de como aplicar o caminho durante a vida quotidiana. O aspecto de meditação contemplativa corresponde ao caminho que atinge directamente a essência, e o aspecto de aplicar o caminho na vida diária corresponde ao caminho que dissolve ilusão.
Para atingir directamente a essência podem usar-se muitas explicações, mas nenhuma é de grande utilidade. Atingir directamente a essência significa entrar directamente na condição fundamental do Ser, ficando-de-uma-só-vez no coração da mente-consciência que é em si já a condição autentica.
Idealmente isto significa receber as instruções e a 'introdução' necessária de um amigo espiritual qualificado ou guia, para que se possa reconhecer aquilo que é imutável e intrínseco na mente - a sapiência-luminosa-intrínseca que é não-criada, imaculada, sem objecto e intemporal. Quando esta essência do Ser é claramente reconhecida, então permanecer como aquilo que foi reconhecido sem interrupção é o significado de: ficar-de-uma-só-vez no coração da mente. Este é também o verdadeiro significado de 'meditação contemplativa'. Se este entrar-de-uma-só-vez não é possível devido as circunstancias, então pelo menos a pessoa deve tentar aprender e aplicar o método de meditação que vou descrever de seguida. Através de ganhar experiência na meditação a pessoa pode abordar a descoberta dessa sapiência-luminosa-intrínseca de forma gradual.
Em relação ao corpo devemos aprender as formas correctas de sentar de forma a não bloquear a clareza da mente.
Em relação á mente - a mente é colocada onde tudo é visível, escutado e sentido, mas nenhum objecto é mantido na mente. A mente é colocada em lugar nenhum. Este colocar da mente não é um interiorizar da mente ou bloquear dos sentidos. Neste colocar da mente todo o campo do visível é visto, tudo é ouvido e sentido, no entanto a mente não sai para agarrar e fixar a nada em particular. É uma mente de grande clareza, silenciosa e totalmente aberta e presente, sem se focar em nada e sem prestar atenção a nada.
Quando a mente encontra o seu lugar desta forma, é imediatamente abandonada sem hesitação.
O abandonar da mente significa que paramos qualquer tipo de controlo ou manipulação da mente, permitindo que fique como está, natural. Permitindo que relaxe naturalmente para uma abertura vasta, uma clareza luminosa e aberta onde tudo é permitido entrar e sair, ir e vir. Assim como o espaço do céu é uma abertura vasta onde as nuvens podem ir e vir sem obstáculo ou interferência, e o céu nunca se envolve ou presta atenção ás nuvens. Da mesma forma os pensamentos podem aparecer e desaparecer da mente por si próprios. Se em algum momento o meditador agarra um pensamento e segue-o construindo activamente mais pensamentos, então o espaço natural da meditação perdeu-se. Por outro lado, se tenta bloquear os pensamentos, impedindo que se manifestem então a abertura perde-se e a mente fica contraída. Este abandonar da mente é um grande relaxar, um não-fazer, sem perder a clareza aberta natural da mente. De uma forma directa e resumida o abandonar da mente é como descrito por Tilopa:
Não lembrar o passado
Não imaginar o futuro
Não pensar agora
Não examinar o que está a acontecer
Não controlar o que está a acontecer
Repousar - Agora relaxar e repousar a mente
Depois de abandonar a mente e repousar nesse abandono, aberto e límpido, é claramente visível quando se perde esse abandonar, ie, quando a meditação se perde o discurso mental, o pensar e o agarrar a objectos dos sentidos volta totalmente, e a isso chamamos distracção. Alternativamente se a mente se afunda num estado nebuloso e sem clareza, isso também é distracção. Quando qualquer forma de distracção acontece devemos de imediato voltar ao inicio e colocar a mente de novo, e de novo abandona-la.
Através de atingir directamente a essência, através de meditação contemplativa, tendo aprendido exactamente como aplicar e quais possíveis erros e desvios para estados mentais confusos que devem ser evitados, avançamos assim directamente para a realização da natureza do Ser. É importante meditar diariamente, em sessões curtas ao inicio de alguns minutos, duas ou três vezes por dia. Devemos aplicar o numero de sessões e duração de acordo com a nossa capacidade e possibilidade. A duração de cada sessão aumenta naturalmente com a experiência e capacidade. Se possível é crucial receber instruções e 'introdução' para clarificar duvidas e possíveis erros. Quando a experiência aumenta e a clareza natural da mente se torna mais estável é possível 'levar' essa presença-luminosa para a vida diária, e esta é a forma ideal de prosseguir.
No entanto no inicio não é fácil de manter a presença de forma estável durante as actividades da vida. Até que o praticante consiga ter uma integração das actividades do dia com a sua presença-natural de forma concreta, deve usar outra abordagem para as actividades da vida. Este é o caminho que dissolve a ilusão que vou explicar de seguida.
Dissolvendo a Ilusão
O caminho que dissolve a ilusão é a forma de aplicar o caminho para a liberdade na vida diária. A forma de entender esta abordagem é através de dois princípios: A Entrega e agir de acordo com a verdadeira natureza.
O que é importante entender aqui é que devemos mudar a forma como olhamos e interagimos com a vida e com o mundo, integrando todas as actividades e situações de uma forma que suporta o nosso caminho e a descoberta da verdadeira condição da realidade. .
A Entrega
O aspecto de Entrega deve ser entendido como o manter de um estado de consciência presente em relação ao que se está a passar, e agir orientado por três princípios: Contentamento, abandonar expectativas acerca de resultados e agir num estado de presença e de acordo com as condições. Vou agora explicar cada um em mais detalhe.
O mundo surge e manifesta-se a cada momento, de momento para momento, integrado e inseparável da base fundamental da realidade. Este surgir dentro da base fundamental manifesta-se como o mundo aparente e relativo, e todos os seres, numa rede inconcebível de causas e condições com toda a diversidade e mistério. Os seres vivos que percepcionam o mundo através de conceitos e ideias, acreditando que existe um 'eu' independente e verdadeiro, e um 'outro' também independente e verdadeiro, não conhecem a base fundamental da realidade. Desta forma não tendo visibilidade sobre todas as causas e condições que se manifestam no mundo aparente, qualquer tentativa de controlar ou fixar o mundo ou a nós próprios, inevitavelmente causa tensões e conflitos, e os resultados são sempre incertos. Do ponto de vista da mente conceptual limitada, o único aspecto onde se pode ter alguma influencia é na expressão das nossas próprias acções, palavras e pensamentos.
Contentamento
O mundo relativo aparente é um fluxo constante de condições momentâneas. Na sua base é incompreensível e as coisas nunca estão fixas nem por um instante. As situações aparecem, mudam e evolvem devido a muitas causas e condições que se manifestam da base da realidade que é em si infundada, inconcebível e misteriosa. O que já aconteceu já está manifestado, e o que está em processo de manifestação, já se está a manifestar - O que é que se pode controlar? Só podemos agir agora com o que está presente no momento. Se observamos e compreendemos isto então torna-se óbvio que rejeitar e ficar zangado ou triste com o que está a acontecer na nossa experiência do momento não tem sentido, mas de facto vai causar mais tensões e problemas. Devido ao facto que o mundo é um fluxo momentâneo, nada pode permanecer fixo e concreto de forma permanente - então qualquer tentativa de controlar as coisas baseado somente nas nossas projecções mentais e julgamentos, sem ter a visão directa de como as coisas verdadeiramente são, vai de certeza causar conflitos e problemas. Assim ficamos-nos a queixar, em tristeza ou perturbação quando algo acontece que não queremos, ou muito excitados quando algo bom acontece. Quando verdadeiramente analisamos e compreendemos a situação, então podemos cultivar uma mente relaxada e de contentamento em relação aos altos e baixos que se manifestam na vida. Uma mente de contentamento é uma mente aberta e espaçosa, rica e fecunda em alegria e paz. Uma mente de contentamento move-se de acordo com a verdadeira natureza, e dessa forma leva na direcção da paz e sabedoria.
Muitas vezes quando nos encontramos numa situação, seja ela feliz ou triste, onde temos de tomar decisões e agir, não temos a certeza do que fazer; ou por outro lado podemos pensar que sabemos como agir mas depois as coisas correm de forma totalmente diferente do esperado. Devemos então lembrar-nos que tudo é impermanente e que a mente conceptual limitada não sabe verdadeiramente o que se está a passar ou como as coisas irão evoluir. Mas seja como for tudo é não-criado e ilusório por natureza, então devemos manter uma mente relaxada e vasta na sua perspectiva. Existe uma historia que ilustra este principio de forma muito simples - Junto a uma floresta, numa pequena aldeia, vivia um agricultor e a sua família. Um dia o melhor cavalo que tinha saltou a vedação e fugiu para as montanhas. Quando um vizinho e amigo passava e se apercebeu do que se tinha passado, disse para ao amigo, "Que azar, era o melhor cavalo de toda a região!". O agricultor responde de forma serena, olhando as montanhas, "Não sei, vamos ver...". Passados uns dias, ao sair pela manhã de casa para ir tomar conta dos animais, com grande surpresa, vê junto á vedação que o seu cavalo tinha regressado, mas não estava sozinho - com ele tinham vindo vários cavalos selvagens. O seu amigo que passava por perto ao ver isto sorri e diz-lhe, "Oh amigo, que sortudo! parece impossível, não só o cavalo voltou, mas agora tens mais!". O agricultor com um sorriso responde de novo "Não sei, vamos ver..". No dia seguinte o filho mais velho começa a trabalhar com os cavalos novos, e escolhe um dos mais jovens, para o domar. O agricultor e o seu amigo observam á distancia o rapaz, quando de repente o cavalo o atira para o chão violentamente. A queda foi tal que ele parte uma perna. O vizinho diz para o agricultor, "Que azar este, agora o teu filho tem a perna partida, e agora que estamos quase na altura das colheitas". O agricultor sem grande hesitação responde, "Não sei, vamos ver..". Os dias passam, e uma manhã chega a noticia que o Rei se tinha envolvido numa guerra e que soldados andavam a passar de aldeia a aldeia, a recrutar obrigatoriamente jovens para o exercito. Quando os soldados vão á casa do agricultor, vêm que o filho mais velho tinha a perna partida e não o podem levar.. Boa sorte?.. Não sei, vamos ver...
Agir em presença de acordo com as condições
Os seres vivos geralmente movem-se em grande tumulto interior, conflito e confusão; apesar de por vezes terem boas intenções, em geral são motivados por interesses pessoais e egocêntricos, perturbados por vários tipos de problemas como podemos facilmente observar. Tendo isto em conta, devemos tentar mover-nos no mundo de uma forma que é orientada por compaixão e amor. Tudo o que acontece no mundo é partilhado por todos, directa ou indirectamente, mais cedo ou mais tarde. Todos contribuem para este grande jardim que é o mundo relativo, e todos nós acabamos por observar e experienciar as plantas que crescem como resultado das sementes que são plantadas por todos. Com este entendimento ficamos mais conscientes das nossas acções, palavras e pensamentos. Assim como muitos ribeiros acabam por se misturar todos nas águas do lago onde desaguam, ficando presentes para todos os peixes e criaturas do lago. Assim como todas as sementes espalhadas por um jardim vão definir com o jardim se vai manifestar - da mesma forma as acções, palavras e pensamentos de cada um são como as sementes e as ribeiras. Se compreendemos isto ficamos mais atentos ás nossas acções, palavras e pensamentos. Devemos aprender a ser responsáveis pelas nossas acções, palavras e pensamentos, não para obedecer a um conjunto de regras ou regulamentos relativos impostos por alguém ou por tradição, mas porque sabemos que neste mundo relativo são sementes que vão ter consequências. Então com esta consciência e uma mente cultivada que permanece calma e presente, agimos livremente e de forma responsável.
Não existem regras absolutas para determinar o que é certo ou errado a cada momento e situação, porque tudo é relativo e depende do estado da mente. Pode parecer mais fácil por vezes ter regras concretas que nos dizem o que é certo ou errado, mas isso não corresponde á realidade. A única coisa que uma pessoa com uma mente limitada pode dizer com certeza em relação ao mundo relativo é: Da mesma forma que uma semente de milho não produz arroz, qualquer acção motivada por raiva ou medo não vai produzir paz e felicidade. Da mesma forma, uma acção motivada por amor vai resultar em alguma forma de paz ou felicidade. Ou seja, por outras palavras, o resultado de qualquer acção, palavra ou pensamento, é sempre de acordo com a natureza da motivação e acção original. Como diz num sutra: "Todas as coisas se manifestam dependentes de causas, no entanto não são existentes nem são não-existentes. Não existe ego nem agente, no entanto todas as acções, positivas ou negativas, produzem resultados".
Se entendemos isto, então com uma mente firme e presente no momento, fazemos o nosso melhor em cada situação e contexto, sempre com atenção á nossa motivação.
Tentamos fazer o nosso melhor em cada momento e situação, mantendo a mente no momento presente, assente em compaixão, amor e paciência, mas também com o discernimento das nossas motivações e das motivações dos outros. Cultivamos a motivação intensa de chegar a realização directa da realidade, a liberdade, para nós e para todos. Sabendo que a mente conceptual não pode saber exactamente o que se está a passar ou como as coisas irão evoluir, deixamos de lado opiniões, julgamentos e apego a expectativas. Desta forma, fazemos o que temos de fazer, o que é necessário em cada momento de acordo com a situação. Isto significa que entramos em actividade com uma mente que é vasta e aberta, livre de expectativas e preconcepção, julgamentos, medos e esperanças acerca de resultados. Desta forma acção emerge de um espaço aberto e relaxado, de amor; em vez de acções baseadas em projecções pessoais e julgamentos limitados. Permanecemos assim em paz, com o olhar na direcção do infinito e da liberdade independentemente do que se está a passar ou fazer. Cultivamos uma confiança profunda que cada momento é em si o infinito, e que tudo é a base e os meios para a liberdade total. Desta forma rendemo-nos ao infinito, ao mistério inconcebível da totalidade do Ser. Rendemos o nosso ego limitado ao Absoluto. Isto é entrega.
Agir de acordo com a verdadeira natureza
Chegamos agora ao segundo principio do caminho para dissolver ilusão. Agir de acordo com a verdadeira natureza significa que agimos com o entendimento que tudo é fundamentalmente puro, para além de bom ou mau, e impermanente por natureza. A ignorância acerca da verdadeira condição do ser é a raiz de todos os problemas. Na totalidade da espaço fundamental da realidade não existe 'eu' ou 'outro' - esta condição fundamental não se pode encontrar em nenhum outro lugar para além de aqui mesmo onde estás. Não é um lugar ou um outro tempo algures. A realidade fundamental é aqui e agora, e inclui tudo totalmente - toda a tua vida e situação pessoal neste momento é inseparável da pureza e estado imaculado e total da verdadeira condição da realidade, o Absoluto. Desta forma não há nada para rejeitar, e nada para alcançar. Não há situação de vida ou coisa que não seja já incluída na totalidade do absoluto, no agora eterno. É somente a mente conceptual, limitada por espaço e tempo, que produz esta 'pessoa' e o 'mundo exterior'. É esta a mente limitada que temos de abandonar e nada mais. Não temos de fugir das actividades da vida, seja qual for a situação, e não é necessário transformar-nos numa pessoa diferente ou ter uma vida diferente para descobrir a verdadeira natureza do Ser e da totalidade. Entendemos que o 'eu' que se quer melhorar é em si ilusório e transitório, e que a nossa verdadeira condição é já totalmente perfeita e completa, embora não seja essa ainda a nossa experiência directa. Certamente isto não é fácil de aplicar até ao momento em que a experiência pessoal é directa, então tentamos aplicar isto de acordo com a nossa capacidade e possibilidade no momento presente. Ou seja, devemos tentar, de acordo com as nossas limitações e possibilidade, agir com o entendimento que tudo é puro e perfeito e para além de bom ou mau. Como Dogen Zenji disse "Aqueles que vêm a vida quotidiana como obstáculo para o caminho espiritual, não estão a ver o caminho espiritual em todas as acções do dia a dia. Ainda não entenderam que não existem acções do dia-a-dia separadas e fora da verdade e do absoluto."
A visão de algo como sendo impuro, bom ou mau, é apenas conceptual e não tem base em nada de concreto fora da mente. Como exemplo, um espelho nunca é puro ou impuro. Podemos cobrir o espelho com pó e lama, mas por baixo da sujidade aparente, o espelho continua límpido e a reflectir. Se o espelho fosse sujo, nunca poderia ser limpo. No entanto se o limpamos, dizemos que agora está limpo. Igualmente, se o espelho fosse verdadeiramente limpo, nunca o poderíamos cobrir com sujidade e dizer que está sujo. O estado verdadeiro do espelho é para alem de limpo ou sujo. Olhando de uma outra forma podemos observar que é possível colocar seja o que for em frente ao espelho, podemos colocar uma coisa bonita, ou podemos colocar algo horrível - o espelho reflecte tudo, mas o espelho em si nunca fica bonito nem horrível. Isto é semelhante á mente e as suas experiências. A mente pode ter pensamentos positivos e negativos. Isto acontece exactamente porque a mente em si é para alem de positivo e negativo, de puro ou impuro, de pecado ou virtude. A mente, na sua essência, é imaculada e imaculavel como o espelho. Pode experienciar coisas e pensamentos positivos ou negativos sem nunca ficar presa como sendo positiva ou negativa. A mente é primordialmente para além de ideias de puro ou impuro. Esta é a condição da mente e de todos os fenómenos. Como diz no Lankavatara: "Todas as coisas são ilusórias, não existe impuro nem puro; as coisas não são o que parecem ser, mas também não são algo diferente".
Como aplicar este principio de uma forma concreta? Tendo a compreensão que falamos, vemos que não existe nada que temos de agarrar e fixar porque tudo é para além da mente. Tudo está para além de bom ou mau, e em si, tudo é inseparável da totalidade que é a nossa própria condição fundamental. Porque bom e mau, 'eu' e 'outro' existem somente como conceitos na mente, praticamos generosidade de acordo com as nossas condições individuais e capacidade. Devido a facto que raiva aparece como o resultado da mente rejeitar algo que está a manifestar-se no momento, e que tudo é impermanente e para além de bom e mau - não existe nada para rejeitar, então praticamos paciência. Comportamentos destrutivos como exercer violência sobre outro ser, roubar e etc, têm origem em motivações egoístas e confusas, e são a causa de muitos problemas e sofrimento para todos. Neste caso com o entendimento que na grande inseparabilidade da condição ultima da totalidade não existe 'eu' ou 'outro', devemos agir com respeito por todos. Devido ao facto que a verdadeira natureza do Ser só pode ser descoberta quanto existe uma intensa vontade de liberdade e verdade, cultivamos grande alegria por tudo o que pode levar a essa liberdade e paz, para nós próprios e para todos os seres. Devido a que na verdadeira condição do Ser, não existe perturbação causada por movimento discursivo da mente ou emoções perturbadoras, cultivamos uma mente de paz, silencio e presença luminosa. Devido a que na condição ultima da totalidade, não existe 'eu' ou 'outro', e existe uma grande sabedoria e saber directo da essência da realidade, que é em si completo e total - compreendemos que não existe nada para desenvolver ou eliminar, ninguém para praticar generosidade, ou para a receber. Desta forma o praticante, age sem ser um agente, pratica a generosidade sem apego a si próprio como generoso, ou ao acto de oferta, etc. Rinzai disse que quando esta natureza da mente é vista, o praticante deve simplesmente "avançar directamente e simplesmente, e vai saber sem perguntar ou pensar, como cada dia deve ser vivido". Este é o significado de agir de acordo com a verdadeira natureza.
Se praticamos estas formas de atingir directamente a essência e dissolver ilusão, com uma determinação intensa para descobrir a verdadeira condição e atingir a liberdade, somos como abutres a planar no céu, que depois de despojar a carcaça da mente conceptual de todos os conceitos e limitações, voa livremente no espaço aberto, sem deixar rasto no céu - ficando somente a beleza do seu vôo e o exemplo da liberdade total. O Vôo do Ser é não-criado. Assim como quando um pássaro voa no céu - no movimento do vôo, de onde vem o pássaro? Onde se encontra no momento seguinte? De que sitio no céu vem e para que sitio do céu vai? O vôo do pássaro é não-criado. Somente quando o pássaro pousa numa árvore dizemos que chegou aqui. Assim é a tua mente, o teu sentido de 'eu-pessoa' é apenas uma árvore! Não pouses em árvores, voa!
O significado total deste texto pode ser posto numa só frase: Quem pensas ser não é um 'Quem' de todo. Faz dessa descoberta a missão da tua vida e não poderás falhar. Durante a vida, no movimento pelo mundo, lembra-te: Age com gentileza, bondade. Sê forte e corajoso. Vive como um grande abutre a planar no espaço.
Com Amor, que isto traga beneficio e paz. Aja Das.
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