A Visão e o Caminho do Buda


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Quando olhamos para um caminho espiritual, como podemos compreender exactamente a natureza e abordagem desse caminho?  Seja qual for o caminho espiritual que queremos aprender e caminhar é importante compreender a forma, do ponto de vista desse caminho, de como esse caminho olha para o mundo, porque essa visão é a base do caminho. Dessa base naturalmente emerge a compreensão do que tentamos atingir com o caminho. Finalmente então devemos olhar para a forma de aplicar o caminho de forma concreta para manifestar o resultado. Estes aspectos podem ser expressos como sendo: a Visão, a Pratica, a Conduta e o Resultado, do caminho. A visão é basicamente a forma de olhar para o mundo e para a realidade do ponto de vista desse caminho. O resultado é o que estamos a tentar actualizar. A pratica consiste na aplicação concreta de pratica espiritual baseada na visão e que permite manifestar o resultado. O aspecto de conduta significa as diferentes formas de abordagem de integrar o caminho nas actividades da vida e do mundo. Se olhamos agora especificamente para a tradição Budista vamos encontrar formas diversas de compreender e exprimir estes quatro aspectos. Formas diversas que resultam de níveis de compreensão e profundidade diferentes dos mesmos princípios. No entanto independentemente das diferenças existem pontos essenciais  desde caminho que todos os que seguem, ou aspiram a seguir este caminho devem compreender claramente.

A Visão

A visão, ou a forma como olhamos para a realidade, é o ponto mais importante, porque se a nossa visão da realidade é muito distante, ou contraditória, em relação a como as coisas verdadeiramente são, seja qual for o tipo de pratica espiritual que fazemos torna-se muito difícil atingir uma experiência directa da natureza ultima da realidade.
Existem muitas formas de exprimir de forma relativa, e com níveis variados de subtileza, a visão do Buddha, mas em geral e como diz no Lankavatara Sutra: "Todas as coisas são ilusórias, não existe impuro nem puro; as coisas não são o que parecem ser, mas também não são algo diferente".
Estas palavras do Lankavatara Sutra representam a essência da visão Budista em relação á natureza da realidade.

De forma simples e resumida isto significa que a percepção comum da realidade como  sendo feita de coisas, seres e fenómenos que existem verdadeiramente, independentes e substanciais, não é uma percepção correcta. A forma dualista de ver e separar o mundo entre bom e mau, puro e impuro, é também ilusória. Assim como um arco-iris aparece nitidamente e claramente no espaço, mas no entanto não possui existência real ou substancial, não se consegue encontrar coisa nenhuma, em lugar concreto nenhum, que seja um arco-iris. Todos os fenómenos e 'coisas' que fazem o mundo, o mundo e os seres, são também desse modo como o arco-iris : aparecem e manifestam-se, no entanto não possuem existência ultima e autónoma.

Uma forma importante de apresentar de forma clara, e que diferencia o Budismo de todos os outros caminhos espirituais, é através de quatro pontos que são conhecidos como os quatro selos: 1) Todas as coisas que são compostas de partes são impermanentes 2) Todas as emoções são stress (sofrimento) 3) Os fenómenos (e seres) não possuem existência intrínseca e autónoma, incluindo o 'Eu' do individuo que também não possui existência intrínseca e autónoma. 4) Nirvana é paz total e é para além, ou livre, de todos os extremos. (extremos de: as coisas existem verdadeiramente, nada existe, ambos os casos, ou nenhum destes casos - estas visões são extremos).

Se queremos verdadeiramente compreender os ensinamentos e caminho do Buddha é importante compreender estes pontos com profundidade e tudo o que eles implicam.
Estes quatro selos não são uma invenção filosófica ou dogmas, são marcas que reflectem a forma como as coisas verdadeiramente são, e é possível com estudo, reflexão e meditação concluir directamente que é de facto assim.
Se a nossa meditação e pratica espiritual, e também a nossa conduta no mundo, é baseada e informada por uma compreensão clara da visão, então o nosso caminho leva ao despertar da ilusão e da dualidade. Por outro lado, se não temos uma compreensão clara da visão, e se essa compreensão não for integrada na nossa mente, não importa que praticas espirituais fazemos, podem até trazer algum bem estar temporário, mas será muito difícil ir para além da ilusão e descobrir a condição fundamental da realidade.




A Pratica

Como podemos então actualizar a visão e chegar a uma descoberta directa da forma como as coisas verdadeiramente são? Embora do ponto de vista da condição do absoluto não se encontra nada impuro ou imperfeito, enquanto permanecemos num estado febril de ilusão e confusão, uma pratica espiritual no reino relativo é necessária para amadurecer a mente e conseguir emergir desse estado dualista e confuso.

No contexto Budista encontramos muitas abordagens e formas de pratica, desde as mais relativas e elaboradas até aos níveis mais subtis e directos.

Estas formas diferentes são necessárias porque nem todos entram  no caminho da mesma forma, existe uma grande variedade de condições do individuo, e assim indivíduos diferentes podem beneficiar de abordagens diferentes. No entanto, essencialmente o ponto principal é atingir a liberdade que se encontra quando se quebra a ilusão, a forma confusa de aperceber a realidade, de dissolver o apego a um ego ilusório e romper o véu da ilusão de dualidade. Outra forma de entender o que é pratica é como sendo a forma de trazer a compreensão da visão para uma experiência pratica, para que possamos descobrir a natureza da realidade e do ser de uma forma directa, para além de especulações ou ideias.

Em geral a pratica pode ser descrita como a união dos dois aspectos de shamata e vipasyana. Através da pratica de shamata a mente é liberta de apego e rejeição, e é liberta de emoções perturbadoras, e deixa de perseguir atrás de objectos ilusórios. Desta forma a mente descobre o estado de paz.
Através da pratica de vipasyana a mente descobre directamente a sua natureza luminosa. A união destes dois aspectos de shamata e vipasyana leva á visão directa da natureza pura, vazia, clara e luminosa da mente.
O significado exacto e modo de aplicar de shamata e vipasyana varia e depende da abordagem especifica que se está a aplicar.

Conduta

Quando nos estamos a mover no mundo, a agir, como praticantes de um caminho espiritual tentando despertar da ilusão, como devemos orientar o nosso comportamento de uma forma que apoia o nosso caminho?
Como praticantes devemos entender que o caminho é um todo, uma totalidade de experiência que inclui todos os aspectos das vida, e não somente algo que se faz durante uma sessão de estudo ou pratica espiritual. A forma de integrar todos os aspectos da vida no caminho é o aspecto de conduta.

De uma forma geral conduta pode ser sintetizada como: Não cair em extremos, agir de acordo com o principio de causa e efeito e baseado em compaixão. 
Não cair em extremos significa que agimos no mundo sem cair em ideias extremas sobre a existência das coisas. Ou seja, compreendemos que as coisas, fenómenos e seres, não têm existência verdadeira e autónoma, mas ao mesmo tempo a nossa forma de agir segue o principio de causa e efeito, i.e., acções positivas e virtuosas, com motivação pura, resultam em felicidade, e acções destrutivas e negativas, ou motivadas por emoções negativas, resultam em sofrimento e confusão.
Ao tentarmos aplicar o nosso caminho para a liberdade, cultivamos um sentido de compaixão para com todos os seres que se encontram também na situação de confusão e ilusão, com a aspiração que todos venham a descobrir a sua verdadeira condição. 


 Resultado

O resultado que tentamos manifestar num contexto Budista não corresponde a nenhuma ideia fabricada, um outro lugar ou situação. O resultado não é um objecto que possa ser conceptualizado, porque se fosse seria apenas mais um pensamento e conceito. O resultado aqui não é o resultado de uma construção, mas sim uma eliminação. É a eliminação de todas as emoções perturbadoras e de toda a ilusão que impede a mente de saber directamente a verdadeira condição da realidade. É o dissolver do 'eu' ilusório que aparenta ser o dono e sujeito de todas as experiências. A forma de ser da verdadeira condição de como as coisas são quando tudo isso é eliminado, a condição ultima, não é possível descrever ou exprimir, é o estado totalmente desperto.

 Os Yanas

A explicação da visão, pratica, conduta e resultado que foi descrito acima é apenas uma apresentação geral, que se pode dizer introduz o caminho Budista em geral. No entanto é importante saber que no Budismo existem muitas abordagens diferentes, e cada abordagem explica esses quatro aspectos de forma diferente. 
A forma diferente de cada abordagem não significa uma contradição, mas níveis diferentes de compreensão e pratica. Cada abordagem representa uma visão a um nível diferente, e representam aspectos e níveis diferentes de como o Buddha ensinou o caminho, e cada um é chamado de Yana, ou 'caminho'. Uma forma de classificar e organizar essas abordagens é na forma dos nove yanas, ou nove caminhos para a iluminação, que são: Shravakayana, Pratyekabuddhayana, Mahayana, Kryatantra-yana, upatantra-yana, yogatantra-yana, mahayogatantra-yana, anuyogatantra-yana and Atiyoga-yana. Cada um destes yanas oferece um caminho completo e total para o despertar, e cada um apresenta no seu contexto o seus aspectos de visão, pratica, conduta e resultado.

No caso concreto de Atiyoga-yana por exemplo, e de uma forma muito breve, estes aspectos são:

Todos os fenómenos do mundo relativo e do nirvana são da natureza da inseparabilidade da pureza-primordial (vazio de existência verdadeira e autónoma) e sabedoria-intrínseca-primordial. A sabedoria-intrínseca-primordial da mente em si constitui a visão.

A pratica é o reconhecer do estado natural da mente e da sapiência-intrínseca-luminosa, livre de fixações, deixando todos os pensamentos no estado de auto-libertação espontânea e sem esforço.

A conduta é agir no mundo sem perder o estado natural da mente, livre de fixações, e em harmonia com causa e efeito.

O resultado é a realização completa da natureza intrínseca da mente e realidade, que sempre foi desde o inicio como é, perfeita e completa.




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