Atiyana - Uma breve introdução aos princípios e historia
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Este artigo introduz de uma forma breve e simples, a história e os princípios principais da tradição espiritual ancestral de Mahasandhi ou Atiyoga.
A tradição espiritual chamada de Grande-Perfeição (Sanscrito. Mahasandhi, Tibetano. Dzogchen), também conhecida por Atiyoga (Yoga da Sabedoria Primordial), é uma tradição mística de não-dualidade que vem do Santo e Mistico, o Mahasiddha Indiano Prahevajra, nativo do antigo Reino de Udiyana.
Mahasandhi, ou a Grande-Perfeição, em si significa a verdadeira condição do Ser. Neste sentido o termo Mahasandhi não se refere a um conjunto de ensinamentos ou praticas, mas refere-se directamente ao estado fundamental da realidade, a verdadeira natureza do Ser. A tradição espiritual de Mahasandhi em si está para além de qualquer forma religiosa, é um apontar directamente para a essência da mente e da realidade, é sem-forma e fortemente experiencial na sua expressão. Deste ponto de vista poderíamos dizer que é a essência de todas as religiões. Por outro lado, como abordagem e visão espiritual, manifesta-se como uma tradição espiritual independente por si própria, ou pode ser absorvida numa outra tradição religiosa (como aconteceu no Tibete com o Budismo e religião Bon) - porque é a essência da realidade em si!
Então, por um lado como uma visão espiritual, Mahasandhi refer-se directamente ao estado primordial do Ser; por outro lado, como uma tradição espiritual independente, oferece um conjunto de ensinamentos, explicações, praticas, meditações, i.e., um caminho espiritual completo - neste sentido é o caminho primordial, Atiyana.
Então, por um lado como uma visão espiritual, Mahasandhi refer-se directamente ao estado primordial do Ser; por outro lado, como uma tradição espiritual independente, oferece um conjunto de ensinamentos, explicações, praticas, meditações, i.e., um caminho espiritual completo - neste sentido é o caminho primordial, Atiyana.
Os ensinamentos de Atiyana explicam que o mundo aparente e ilusório manifesta-se na Base Fundamental, ou Fonte Suprema, o estado pristino original, o É-o-que-É (suchness). Tudo o que se manifesta, quer os seres vivos confusos como os seres iluminados, manifestam-se inseparavelmente nesta Base primordialmente pura. Todas as manifestações são a vivacidade-energia natural da Base. Por não saber a natureza do 'ser' e de todas as manifestações como sendo inseparáveis, e da mesma natureza que a Base, os seres estão confusos.
A essência dos ensinamentos de Atiyoga é o reconhecimento do aspecto da natureza da mente chamado de 'Vidya', uma cognição-sapiência que é auto-cognoscente, não-criada, independente de objecto de conhecimento, não-dual e não obstruída. Esta Vidya como saber-primordial pode directamente, e completamente saber a natureza da Base e de toda a manifestação. Vidya em si é inseparável da Base, e como manifestação é Grande Amor e Compaixão; como a raiz de toda a manifestação é manifestação espontânea. Por outras palavras, é o aspecto puro cognitivo da natureza fundamental que se sabe a si próprio como o É-o-que-É (suchness) e toda a diversidade de fenómenos, como inseparáveis da Base.
A essência dos ensinamentos de Atiyoga é o reconhecimento do aspecto da natureza da mente chamado de 'Vidya', uma cognição-sapiência que é auto-cognoscente, não-criada, independente de objecto de conhecimento, não-dual e não obstruída. Esta Vidya como saber-primordial pode directamente, e completamente saber a natureza da Base e de toda a manifestação. Vidya em si é inseparável da Base, e como manifestação é Grande Amor e Compaixão; como a raiz de toda a manifestação é manifestação espontânea. Por outras palavras, é o aspecto puro cognitivo da natureza fundamental que se sabe a si próprio como o É-o-que-É (suchness) e toda a diversidade de fenómenos, como inseparáveis da Base.
A não-dualidade em Atiyana não é a visão de uma singularidade monista existente onde tudo é igual e uno (tudo é Um). Em Atiyana não-dualidade, de forma simplista, significa que na Base, que é a fonte de toda a manifestação, todos os fenómenos são inseparáveis, uma grande inseparabilidade inconcebível onde não se pode dizer que as coisas são separadas, Dois, ou que são uma unidade, Um. Não Um, Não Dois.
O objectivo então é o reconhecimento total e completo da nossa verdadeira natureza, a condição ultima da realidade como inseparável da Base Pura. Esta Base não é um objecto, não é uma 'coisa' e não é uma entidade. A Base, ou Fonte Suprema, é inconcebível e para além de palavras ou pensamentos, só pode ser 'sabida' directamente por Vidya. Na Base tudo é auto-aperfeiçoado, todas as qualidades do ser iluminado, como Amor Puro, Compaixão Pura, Sabedoria etc, são aspectos auto-aperfeiçoados, nativos, na Base. Devido a isso, na visão de Atiyoga não é necessário desenvolver nada no Ser-Pessoal-psicológico, é só necessário reconhecer a nossa natureza e manifestar totalmente aquilo que já é intrínseco, pois tudo já é auto-aperfeiçoado - daí o nome Grande-Perfeição.
O objectivo então é o reconhecimento total e completo da nossa verdadeira natureza, a condição ultima da realidade como inseparável da Base Pura. Esta Base não é um objecto, não é uma 'coisa' e não é uma entidade. A Base, ou Fonte Suprema, é inconcebível e para além de palavras ou pensamentos, só pode ser 'sabida' directamente por Vidya. Na Base tudo é auto-aperfeiçoado, todas as qualidades do ser iluminado, como Amor Puro, Compaixão Pura, Sabedoria etc, são aspectos auto-aperfeiçoados, nativos, na Base. Devido a isso, na visão de Atiyoga não é necessário desenvolver nada no Ser-Pessoal-psicológico, é só necessário reconhecer a nossa natureza e manifestar totalmente aquilo que já é intrínseco, pois tudo já é auto-aperfeiçoado - daí o nome Grande-Perfeição.
Para entender de forma simples Atiyana como um caminho espiritual, basta referir directamente as ultimas palavras e testamento do seu fundador, Prahevajra:
1. Introdução directa a natureza do Ser
2. Remover todas as duvidas sobre a condição única do Ser
3. Integrar tudo nesse estado
Como um caminho então, Atiyana depende no aspecto crucial de transmissão. Sem a transmissão do estado fundamental da mente que é introduzido por um amigo espiritual que tem esse conhecimento directo, é muito difícil fazer essa descoberta - é este o primeiro ponto que Prahevajra menciona.
A abordagem em si é simples, mas muito profunda. Começa sempre com 'transmissão'. No caminho de Atiyana existe um conjunto completo de ensinamentos, métodos, formas de aplicar o caminho e de integração na vida para atingir a descoberta desse estado fundamental até ao despertar total.
2. Remover todas as duvidas sobre a condição única do Ser
3. Integrar tudo nesse estado
Como um caminho então, Atiyana depende no aspecto crucial de transmissão. Sem a transmissão do estado fundamental da mente que é introduzido por um amigo espiritual que tem esse conhecimento directo, é muito difícil fazer essa descoberta - é este o primeiro ponto que Prahevajra menciona.
A abordagem em si é simples, mas muito profunda. Começa sempre com 'transmissão'. No caminho de Atiyana existe um conjunto completo de ensinamentos, métodos, formas de aplicar o caminho e de integração na vida para atingir a descoberta desse estado fundamental até ao despertar total.
O primeiro Mestre humano a introduzir estes ensinamentos de Mahasandhi foi Prahevajra (tib. Garab Dorje). Este conjunto original de ensinamentos que hoje se refere como 'classe da mente' de Mahasandhi, como distinção de outras variantes que se desenvolveram mais tarde quando estes ensinamentos chegaram ao Tibet no século VIII. Embora existam textos, e uma linha ininterrupta de transmissão oral de Mestres na tradição desde o inicio, encontrar as datas exactas em que Prahevajra nasceu e viveu é difícil. Dependendo de fontes diferentes as datas variam. Não vou aqui apresentar uma apresentação detalhada de todas as historias sobre Prahevajra, mas simplesmente introduzir um pouco desta figura misteriosa, mas que ainda hoje tem uma influencia profunda em muitas tradições espirituais. No que diz respeito ao período onde nasceu e viveu, como disse é difícil de estabelecer com exactidão, com referencia a textos da antiguidade e na tradição oral, podemos estabelecer um período desde o ano 55 DC até algures no século VI. Prahevajra nasceu no Reino de Udyana. Nas referencias tradicionais, no antigo Reino de Udiyana havia um grande lago com uma ilha no centro, nessa ilha havia um convento e templo. Uma das monjas, chamada Sudharma, era uma das filhas do Rei Uparaja. Uma noite enquanto dormia teve um sonho. Nesse sonho apareceu um homem luminoso que colocou um vaso de cristal sobre a sua cabeça. Do vaso emanou luz três vezes. Pouco depois deste sonho ela, ainda virgem, engravidou e daí nasceu um rapaz. Desde pequeno era um rapaz prodigioso, e somente com sete anos de idade venceu em debate os filósofos mais famosos do reino. Existem muitas historias de feitos extraordinários e milagrosos. A certa altura deixou a vida no palácio e foi sozinho para as montanhas onde permaneceu em meditação por 32 anos. Eventualmente acabou por deixar o reino e foi para Bodhgaya no norte da India onde ficou o resto da vida.
Embora os detalhes históricos da vida de Prahevajra estejam envoltos na neblina do tempo, os textos, ensinamentos, e mais importante a linha directa de discípulos que o seguiram é muito clara. Não é de grande importância se consideramos os relatos em existência sobre os detalhes da vida de Prahevajra como factuais ou hagiográficos, porque o mais importante é que se mantém viva uma linha bem documentada, nunca quebrada, de tradição oral e textual de sabedoria e métodos profundos, que permanece até hoje, e que ao longo da historia até hoje, produziu inúmeros seres iluminados e totalmente realizados.
O estudante principal e herdeiro foi Manjushrimitra que recebeu transmissão e ficou com Prahevajra durante 75 anos. Manjushrimitra era de origem Indiana, de uma zona perto de Bodhgaya, e era ainda antes de conhecer Prahevajra já bem educado nas escolas de Cittamatra e Yogacara. Depois continuando a linha, Manjushrimitra deu a transmissão a Sri Simha. De acordo com alguns historiadores modernos como A.W. Barber, Sri Simha acabou por ir para o sul da India onde transmitiu a tradição de Mahasandhi a outros que eventualmente a levaram para a China e Tibete. Os nomes mais conhecidos que receberam a transmissão de Sri Simha são Vimalamitra, Jnanasutra e Vairotsana. Nesta breve descrição que faço aqui, o interesse agora é Vairotsana.
Foi através de Vairotsana que a linha de Mahasandhi que existe hoje chegou até ao nosso tempo sem interrupção.
Foi através de Vairotsana que a linha de Mahasandhi que existe hoje chegou até ao nosso tempo sem interrupção.
No século VIII, o Tibetano Vairotsana foi escolhido pelo Rei para aprender Sanscrito, e treinar na arte de tradução com o objectivo de ir até á India buscar os ensinamentos de Mahasandhi. Foi Vairotsana que viajou até á India para procurar Sri Simha, de quem recebeu a transmissão completa desta tradição. Vairotsana ficou com Sri Simha por bastante tempo até ter recebido tudo, e mais importante, até que realizou por si próprio a natureza ultima. Quando regressou ao Tibete começou por traduzir 5 textos, que são hoje conhecidos como as primeiras cinco traduções, e que formam a raiz da tradição Mahasandhi: O cuco da consciência, A grande Potencia, O voo do Garuda, Ouro Puro e A Bandeira da Vitoria que não se esvanece. Mais tarde outros 13 textos foram traduzidos, culminando na referência principal de Atiyoga: O Kulayarajatantra, ou Tantra da Fonte Suprema. Para além dos textos originais que Vairotsana recebeu de Sri Simha e traduziu, permanence ainda alguns comentários e instruções praticas de Vairotsana em relação á forma de entender e praticar, e a linha de transmissão oral.
Esta linha profunda, inconcebível de transmissão de Mahasandhi está bem viva hoje, com uma linha de transmissão oral nunca quebrada desde a origem com Prahevajra. Embora a tradição tenha aparentemente desaparecido na India (ou será que não? Mas isso é tópico para outro artigo) foi mantida viva e sem interrupção no Tibete. Não menciono aqui outros desenvolvimentos que aconteceram mais tarde dentro do Budismo Tibetano, que levaram ao desenvolvimento do que eu chamo "Dzogchen Tibetano", que é o resultado de um movimento muito intenso para justificar a tradição de Mahasandhi e incorpora-la com o Budismo tantrico e os movimentos gradualistas e ortodoxos da época. Como mencionei antes Mahasandhi é a natureza ultima do Ser e da realidade, para além de qualquer forma religiosa. Como caminho, Atiyana, oferece uma abordagem independente, um caminho completo, e por si próprio sem depender de nenhuma outra forma religiosa. Por outro lado, para quem o deseja fazer, pode ser incorporado em qualquer forma religiosa, e isso foi feito no Tibete, quer no Budismo Tibetano quer na religião Bon que também tem a sua versão de Atiyoga.
No entanto, a linha de transmissão a que me refiro, é a essência, a raiz desta tradição e não as formas adaptadas e gradualistas que se desenvolveram mais tarde (não querendo tirar-lhes qualquer mérito ou importância para quem as quer seguir)
Do meu ponto de vista, o que é realmente de uma importância fundamental hoje em dia é a transmissão original de Mahasandhi, a essência da natureza da mente e o caminho de Atiyana. O manter, transmitir e praticar esta visão profunda como um caminho total para a realização, independente de ortodoxia institucional, religiosa e ritualismos. Atiyana na sua forma mais original, oferece um caminho completo, directo para a realização total. Por outro lado, a universalidade dos seus princípios, a profundidade da sua essência e dos seus métodos contemplativos, podem trazer grande beneficio a praticantes de qualquer outra religião.
com amor
Aja Das
